Vale a pena ser um(a) professor(a) nos dias atuais?

O que leva uma pessoa, em sã consciência, a tornar-se professor(a) nos dias atuais?

Marcos Pereira dos Santos (*)

Desde o surgimento da humanidade, sempre existiram pessoas que se dedicavam à arte de ensinar algo a alguém: pais, preceptores, sábios pensadores, sofistas (filósofos gregos que “vendiam” seus ensinamentos em praças públicas) e pedagogos (“escravos” que, na Grécia antiga, eram responsáveis pela condução das crianças ao conhecimento).

Inicialmente, tratava-se de uma educação do tipo não formal, isto é, objetivava a ocorrência de ensino e aprendizagem de modo assistemático; sendo muitas vezes “realizada em instituições educativas fora dos marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação” (LIBÂNEO, 1999, p.23). Contudo, foi somente com o surgimento da escola propriamente dita, por volta do século XIII, como instituição social de função educativa e voltada à formação integral dos estudantes, que a educação começa a adquirir certo nível de formalidade, legitimidade e organização.

Mais tarde, com o advento das universidades, são criados os primeiros cursos de graduação (bacharelados e licenciaturas) voltados à formação de profissionais da educação (professores e “técnicos/especialistas” em educação: administradores escolares, supervisores e orientadores educacionais, e inspetores escolares).

É interessante destacar que, conforme nos apontam Catani, Bueno e Sousa (2000), no início do processo de criação e implementação dos cursos de formação de professores, no Brasil e em outros países da Europa Ocidental, era de competência somente dos homens o exercício da profissão docente, tanto na Educação Infantil quanto em outros níveis e modalidades de ensino; cabendo às mulheres apenas os cuidados com os afazeres domésticos. No decorrer das décadas, por questões de ordem cultural, política e socioeconômica, o magistério passa a ser um campo de atuação profissional permeado, concomitantemente, por homens e mulheres, os quais desenvolvem atividades de docência e pesquisa científica tanto na escola de Educação Básica, quanto no Ensino Superior.

Posto isso, cabe-nos indagar: O que leva uma pessoa, em sã consciência, a tornar-se professor(a) nos dias atuais? Quais seriam as principais razões que norteiam tal decisão, uma vez que terá o desafio de disputar a atenção de seus alunos com toda a magia e sofisticação da “parafernália” eletrônica digital existente na sociedade capitalista contemporânea? Fama? Sucesso? Dinheiro? Status social? Ou ainda: Vocação? Comoção? Abnegação? Amor à profissão? Falta de opção? Ou mesmo: Pouca concorrência no vestibular? Ingresso (quase) imediato no mercado de trabalho? Estabilidade no emprego? Possibilidade de ascendência profissional? Um pouco de tudo isso? Nada disso? Outros motivos?

Fama, sucesso, dinheiro e status social se configuram como razões que pouco contribuem para levar uma pessoa a tornar-se professor(a), ao menos, no Brasil dos dias atuais, dada a desvalorização da categoria profissional docente por parte da sociedade e das entidades governamentais como um todo, a qual ainda se manifesta de forma latente na baixa remuneração salarial dos professores e na ausência de reconhecimento social acerca do trabalho pedagógico desenvolvidos pelos mesmos nos diferentes níveis e modalidades de ensino.

 

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Apesar de os cursos de licenciatura em geral apresentarem pouca concorrência nos concursos vestibulares realizados no Brasil afora, acreditamos que tal fator, aliado à falácia da falta de opções por outros cursos de graduação, do ingresso (quase) imediato no mercado de trabalho, da estabilidade no emprego (garantida somente através da realização de concurso público) e da possibilidade de ascendência profissional (mediante determinadas ressalvas), não justifica exatamente o fato de alguém optar pela profissão de professor. Na atualidade, há muitas outras profissões, principalmente as da área tecnológica, que podem propiciar a uma pessoa significativo crescimento profissional e financeiro em tempo bastante reduzido e de forma muito menos burocrática; salvo raras exceções.

Sendo assim, seriam a vocação, a comoção, a abnegação e o amor à profissão alguns dos principais motivos que levam uma pessoa a torna-se professor(a) em pleno século XXI. Embora, de modo geral, os cursos de licenciatura atualmente apresentem pouca procura por parte dos estudantes brasileiros, é possível observar que existem inúmeros profissionais da educação atuando em diversos setores da sociedade (escolas, universidades, empresas, hospitais, sindicatos e organizações não governamentais, entre outros).

Num primeiro momento, tal assertiva leva-nos a pensar que o mercado já esteja saturado de trabalhadores da educação. E talvez esteja mesmo (...), ao menos em certa medida; tendo em vista a proliferação dos cursos de formação inicial de professores ofertados nas modalidades presencial, semipresencial e a distância (pontos nevrálgicos da educação escolar brasileira nos dias atuais). Todavia, ainda há carência de docentes em muitas regiões paupérrimas do Brasil, a exemplo do Nordeste, e com formação específica para atuar com dedicação e afinco em áreas polêmicas como educação no campo, educação inclusiva, educação de jovens e adultos etc.

Sem a pretensão de adentrar no mérito da questão, não se pode negar que, apesar dos entraves político-sociais e econômicos existentes, milhares de novos profissionais da educação são formados a cada ano pelas universidades públicas e privadas, faculdades isoladas de educação, centros de educação superior e outras instituições universitárias congêneres. Entretanto, faz-se urgente e necessário refletir sobre a qualidade da educação recebida por esses novos profissionais, uma vez que o mercado de trabalho apresenta-se cada vez mais competitivo, seletivo e imerso em diferentes espaços e contextos sócio-tecnológicos. Corroborando com Sousa (2003), isso significa dizer que não basta apenas tornar-se professor(a), isto é, possuir apenas um título acadêmico de licenciado(a), ou simplesmente “estar professor(a)” por algum motivo e durante um tempo determinado. É preciso ser professor(a) de fato e de verdade, por opção, vocação, comoção, abnegação e amor à profissão.

Dessa forma, fazemos nossas as palavras de Fraga (2007, p.10) ao afirmar que “ser professor vai muito mais além do que simplesmente ensinar”. Exercer o magistério implica ser ensinante e ao mesmo tempo aprendente, mestre e discípulo, amigo, companheiro, conselheiro e orientador. Mas, é também ser prudente, paciente, benevolente e resiliente. É ser honesto, sincero, empático e simpático. É lançar um olhar panóptico (FOUCAULT, 1997) sobre o processo ensino-aprendizagem em geral, não no sentido de vigilância ou punição; mas no intuito de lutar de forma militante em prol de uma educação de melhor qualidade, visando, assim, o desenvolvimento integral dos educandos e a construção de uma sociedade cada vez mais fraterna, equânime e democrática.

Ser professor é exercer uma espécie de sacerdócio, sem ócio. É ter um pouco de sofista, poeta e profeta. É ser ético, correto e justo em toda e qualquer instância e circunstância, dentro e fora da sala de aula. Em suma, ser professor no século XXI é ser um pouco de tudo isso e muito além disso (...). Ser professor é, pois, ser o início, o meio e nunca o fim.

Face ao exposto, faz-se necessário agradecer a todos os professores, educadores, educomunicadores, pedagogos, gestores escolares, supervisores e orientadores educacionais, inspetores escolares, coordenadores e assessores pedagógicos, arte-educadores, pesquisadores da área educacional, entre outros, que dedicam parte de seu precioso tempo à formação de educandos criativos, proativos, crítico-reflexivos e conscientes de seus reais direitos e deveres como cidadãos; transmitindo-lhes assim valores e conhecimentos úteis tanto para a vida na escola quanto para a escola da vida.

Que possamos a cada dia exercer com maior dedicação e alegria no coração o ofício de professor (SOUSA NETO, 2005). Trata-se de uma tarefa árdua, porém imensamente gratificante. É preciso ser professor para colaborar no processo dual de pensar-fazer a história das sociedades por intermédio da Educação: único instrumento eficiente, eficaz e realmente capaz de transformar, positivamente, pensamentos e ações, teorias e práticas.

Ademais, desejamos sinceras congratulações a todos os profissionais da educação, do Brasil e do mundo: àqueles que um dia se tornaram professores, àqueles que estão em processo de formação docente, àqueles que (ainda) continuam a ser professores e àqueles que morreram como professores. É uma homenagem mais do que merecida, não? 

 

Referências

CATANI, D. B.; BUENO, B. O.; SOUSA, C. P. Os homens e o magistério: as vozes masculinas nas narrativas de formação. In: _______. (Orgs.). A vida e o ofício dos professores: formação contínua, autobiografia e pesquisa em colaboração. 2.ed. São Paulo: Escrituras, p.45-64, 2000. 

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 25.ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

FRAGA, T. Por que ser professor. In: Revista Nova Escola: formação – edição especial. São Paulo: Editora Abril, n.16, p.7-11, nov./2007.

LIBÂNEO, J. C. Pedagogia e pedagogos, para quê? 2.ed. São Paulo: Cortez, 1999.

SOUSA, A. C. F. O. Reflexão de uma trajetória de formação e novas possibilidades para a profissionalização: o tornar-se professor. In: Revista Araucárias. Palmas: Editora da UNICS, v.03, n.01, p.55-62, jul./dez., 2003.

SOUSA NETO, M. F. O ofício, a oficina e a profissão: reflexões sobre o lugar social do professor. In: Cadernos CEDES. Campinas: Editora da UNICAMP, v.25, n.66, p.249-259, mai./ago., 2005. 

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é doutor em Teologia, ênfase em Educação Religiosa, pela Faculdade de Educação Teológica Fama (FATEFAMA) e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Escritor, poeta e professor assistente da Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa/PR.. Endereço eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Este artigo foi publicado originalmente em 14-10-2013, sob o título: Por que ser docente no século XXI?

 

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