Pesquisas científicas de abordagem qualiquantitativa: o impasse dos intelectuais

Importância da Estatística para o desenvolvimento de pesquisas

Marcos Pereira dos Santos (*)

negocios numerosEm linhas gerais, pode-se asseverar que os modos de pensar e fazer pesquisas científicas nas universidades sempre foram considerados um dos principais objetos de estudos de epistemólogos e outros estudiosos da Ciência. No entanto, ainda nos dias atuais, são inúmeras as polêmicas acerca do real valor científico das investigações de abordagem qualitativa, quantitativa e qualiquantitativa. (GÜNTHER, 2006)

Dizemos “abordagem”, porque, de acordo com Gil (2002), as pesquisas científicas podem ser usualmente classificadas mediante seus objetivos gerais em exploratórias, descritivas e explicativas – as quais são muito úteis para o estabelecimento de marcos teóricos e algumas aproximações conceituais; bem como em relação aos procedimentos técnico-metodológicos utilizados pelo pesquisador para coleta, registro, tabulação, organização, codificação, decodificação, apresentação, descrição, interpretação e análise crítico-reflexiva das informações mais abrangentes, frequentes, relevantes e significativas obtidas de forma empírica (pesquisas do tipo bibliográfica, documental, experimental, participante, levantamento, ex-post facto, pesquisa-ação, estudo de coorte, estudo de campo e estudo de caso), os quais nos permitem ter uma visão panorâmica dos fatos/fenômenos/acontecimentos investigados e confrontar operativamente os dados teóricos com a realidade objetiva existencial concreta.

Embora essa classificação não possa ser tomada como absolutamente rígida, visto que algumas pesquisas científicas, em função de suas características, não se enquadram facilmente num ou noutro modelo, faz-se importante traçar um mapa conceitual e operativo de investigação, o qual recebe o nome de design (desenho, designo, delineamento, sinopse, plano ou caminho e seus respectivos contornos); uma vez que se refere aos processos de planejamento e desenvolvimento técnico-metodológico de pesquisa em sua dimensão mais ampla, envolvendo tanto a diagramação quanto a previsão de análise e interpretação dos dados coletados, assim como o ambiente/local em que as informações são recolhidas e as formas de controle das variáveis envolvidas (conjunto de resultados possíveis de um fenômeno).

O século XX assistiu ao desenvolvimento de uma das ferramentas matemáticas mais utilizadas nos dias de hoje pelos matemáticos, estatísticos, cientistas, analistas financeiros, economistas, administradores, geógrafos, contabilistas, jornalistas e outros profissionais de quase todas as áreas do saber: a Estatística, “palavra derivada do termo latino status que significa Estado ou situação, sendo usada com propósitos ligados ao campo da Economia a partir do século XVIII” (CORDANI, 2003, p.337); embora desde a Grécia antiga fosse empregada principalmente para fins políticos e quantificação de dados referentes a taxas de natalidade e mortalidade populacional (Demografia), plantios e colheitas (Agrimensura), catástrofes naturais, transações comerciais, entre outras aplicações práticas.

Nesse contexto, cabe-nos indagar: Qual a importância da Estatística para o desenvolvimento de pesquisas científicas de abordagem quantitativa?

Todas as abordagens de pesquisa científica se distinguem pelos diferentes pressupostos filosóficos assumidos, isto é, pelas concepções ontológicas (daquilo que existe) e da natureza humana e também por uma postura epistemológica (como o conhecimento é apreendido); de modo que as raízes das pesquisas científicas de viés quantitativo, em particular, estão diretamente atreladas à doutrina filosófica positivista de Augusto Comte (1798-1857), cuja ideia básica, segundo Ribeiro Júnior (1989), é a de que o mundo social existe externamente ao homem e que suas propriedades devem ser medidas por meio de métodos objetivos. A concepção positivista pressupõe que os fenômenos estão sujeitos a um conjunto de leis invariáveis, tanto no mundo humano quanto no natural. O positivismo rejeita, em suma, a noção de que todas as qualidades humanas transcendem o alcance da compreensão científica.

Sendo assim, na abordagem quantitativa, o conhecimento é objetivo e quantificável, de modo que o mesmo é obtido, em geral, por intermédio da realização de pesquisas científicas do tipo experimental. Nessa perspectiva, a realidade objetiva existencial concreta é estável, observável e mensurável. Dizemos isso, porque entendemos que:

[...] num estudo quantitativo o pesquisador conduz seu trabalho a partir de um plano estabelecido a priori, com hipóteses claramente especificadas e variáveis operacionalmente definidas. Preocupa-se com a mediação objetiva e a quantificação dos resultados. Busca a precisão, evitando distorções na etapa de análise e interpretação dos dados, garantindo assim uma margem de segurança em relação às inferências obtidas. (GODOY, 1995, p.58)

Dessa forma, pode-se dizer que na abordagem quantitativa de pesquisa científica, a explicação da realidade concreta somente é possível se for realizada por instrumentos padronizados, pretensamente neutros, assegurando, assim, generalizações com precisão e objetividade; objetividade essa que privilegie a busca de técnicas de controle sobre a natureza, mais do que seu conhecimento e compreensão.

Em outros termos, isso implica assegurar que o emprego da abordagem quantitativa em pesquisas científicas serve, grosso modo, para três propósitos básicos; os quais podem estar presentes numa mesma investigação ou separadamente em estudos diferentes: 1º) descrever e/ou comparar características de grupos sociais, realidades, contextos ou instituições; 2º) estabelecer relações causais, isto é, verificar as magnitudes particulares e os efeitos em bloco de uma série de variáveis independentes em variáveis dependentes; e 3º) inferir resultados para uma população a partir de dados obtidos em uma amostra estatisticamente representativa.  

Formulado o problema de pesquisa, cabe ao pesquisador decidir sobre o critério de seleção da amostra – parte ou subconjunto finito de uma população estatística ou universo estatístico (conjunto de entes/elementos portadores de, pelo menos, uma característica comum: organizações, produtos, pessoas etc.), escolhido segundo algum critério de representatividade; como serão coletados os dados; quem e quantos participantes/informantes serão observados e/ou entrevistados; que documentos serão lidos (livros, ensaios e artigos científicos, legislações, trabalhos de conclusão de curso, monografias de especialização, dissertações de mestrado, teses de doutorado, entre outros); e assim por diante.

Para o desenvolvimento de pesquisas científicas que tem a abordagem quantitativa como pano de fundo, Teixeira (2003) chama a atenção para o fato de que sejam utilizadas amostras do tipo probabilística, ou seja, aquelas que são baseadas em procedimentos essencialmente estatísticos, dentre as quais podem ser destacadas: aleatória simples, sistemática, estratificada, por conglomerado e por etapas. No que diz respeito às técnicas de coleta de dados, a autora supracitada recomenda que sejam utilizados instrumentos tipo survey (ferramentas que deem uma visão geral do objeto de pesquisa em estudo), escalas, testes de medidas estatísticas, entre outros.

Nas pesquisas científicas de abordagem quantitativa os dados coletados são, de maneira geral, submetidos à análise estatística ou quantitativa; a qual pode ser conceitualmente definida como:

[...] outro passo importante no processo de desenvolvimento de pesquisas científicas e que vem logo após a tabulação das informações coletadas, podendo ser procedida em dois níveis: a descrição dos dados e a avaliação das generalizações obtidas a partir desses dados. Essa análise pode ser feita manualmente, com o auxílio de calculadoras ou computadores eletrônicos. Na análise quantitativa, podem-se calcular médias, computar percentagens, examinar os dados para verificar se possuem significância estatística, calcular correlações, ou ainda tentar várias formas de análise multivariada, como a regressão múltipla ou a análise fatorial. Essas análises permitem, pois, “extrair sentido dos dados”, ou seja, testar hipóteses, comparar os resultados para vários subgrupos, e assim por diante. (ROESCH, 1996, p.142)

É fato que os processos de análise e interpretação dos dados coletados pelo pesquisador variam significativamente em função dos diferentes delineamentos de pesquisa científica. Não obstante a peculiaridade de cada forma de tratamento, torna-se possível, na concepção de Chizzotti (1998), Santos Filho (2000) e Teixeira (2003), tratar os dados recolhidos quantitativa e qualitativamente ao mesmo tempo, isto é, de forma qualiquantitativa.

Entretanto, é profícuo ressaltar que, nos dias atuais, a falsa oposição entre “quantitativo” e “qualitativo” está sendo assaltada por dois novos flancos, a saber: o primeiro vem da diversificação de fontes de pesquisa científica, dados e informações; ao passo que o segundo flanco advém com o desenvolvimento de hardwares e softwares capazes de operar com grandes massas de dados, inclusive escritos.

Nos dias atuais, pesquisadores denominados “quantitativos” trabalham com bases de dados que anteriormente eram província exclusivamente “qualitativa”. Essa modificação, em nossa concepção, tem contribuído de forma significativa ao levar muitos pesquisadores a diversificar seus próprios métodos de pesquisa científica, o que implica enfatizar que um bom programa de formação de pesquisadores-professores e de professores-pesquisadores, no Brasil, em particular, deve incluir metodologias de pesquisa cada vez mais diversificadas, sofisticadas, eficazes e eficientes. Diante disso, fazemos nossas as palavras de Chizzotti (1998, p.34) ao afirmar que “a pesquisa quantitativa não necessita ser oposta à qualitativa, mas ambas devem sinergicamente convergir na complementaridade mútua”.

Faz-se imprescindível, pois, o conhecimento dessas questões por parte de todo pesquisador, a fim de que o mesmo seja capaz de correlacionar variáveis dependentes e independentes, sem manipulá-las, e assim estimar, com certo grau de ‘precisão estatística’, a frequência com que um dado fato/fenômeno/acontecimento ocorre e sua relação com outros fatores e contextos sociais envolvidos, tendo em vista a possibilidade de intervir, direta ou indiretamente, sobre a realidade empírica investigada no intuito de transformá-la, sem deixar de lado as questões éticas e morais envolvidas nesse processo; em conformidade com as determinações estabelecidas pela Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde. (BRASIL, 1996; PESCUMA e CASTILHO, 2005)

Ademais, é preciso saber identificar as potencialidades e limitações dos diferentes métodos de investigação que podem ser utilizados no desenvolvimento de pesquisas científicas que tem a abordagem qualitativa, quantitativa ou qualiquantitativa como principal eixo norteador. Nenhuma abordagem é melhor ou pior do que a outra, pois tudo depende do problema de pesquisa em questão.

Trata-se, portanto, de lançar uma espécie de olhar panóptico foucaultiano (FOUCAULT, 1997) sobre as práticas de pesquisa realizadas na e pela universidade brasileira contemporânea; de modo que as mesmas possam retratar de modo ético e fidedigno a realidade investigada a partir de determinado objeto de estudo, minimizando assim o risco de possíveis distorções e/ou afirmações falaciosas infundadas que são geradoras de polêmicas e repercussões problemáticas de grande monta.

Face ao exposto, corroboramos com Demo (1996; 2001) ao salientar que o que melhor distingue a educação escolar e universitária é sua instrumentação através da pesquisa científica, sendo necessário educar, ensinar e aprender pela e para a pesquisa do conhecimento; o que significa dizer que a pesquisa precisa ser entendida como um componente científico-educativo, independentemente do tipo de abordagem e/ou método investigativo adotado, pois não se faz antes pesquisa, depois educação, ou vice-versa, mas ambas sinergicamente convergem na complementaridade mútua. Daí ser preciso perceber a necessidade de construir (novos) itinerários de pesquisa científica, e não simplesmente aceitar “receitas prontas e acabadas” que tendem a destruir o desafio de (re)construção de conhecimentos.

Sem a pretensão de esgotar o assunto em foco, almejamos que todos os pesquisadores, sejam eles denominados de “qualitativos”, “quantitativos” ou “qualiquantitativos”, possam estar efetivamente engajados na luta militante em prol da melhoria da qualidade da educação (escolar e universitária) no Brasil dos dias atuais; educação essa indispensável para a formação integral (paideia) de todos os sujeitos sociais e para a construção de uma sociedade mais justa, ética, fraterna, equânime e verdadeiramente democrática.

Que a Estatística, nesse contexto, ao lado de outras Ciências Exatas, possa de fato ser concebida como uma ferramenta matemática e de pesquisa científica indispensável ao desenvolvimento da própria Estatística e do conhecimento científico historicamente elaborado. (SANTOS, 2012)

Enaltecida por uns e odiada por outros, não há como negar a importância da Estatística para a tomada de decisões em vários campos do saber, principalmente na sociedade contemporânea, onde o acúmulo e a velocidade do processamento de informações se fazem cada vez mais notórios. Se bem utilizada, a Estatística pode ser uma aliada essencial para se compreender as causas e os efeitos/impactos dos fenômenos sociais em geral, bem como funcionar como memória de povos e nações, auxiliando diferentes sociedades na construção de seu próprio futuro, de sua própria história. 

Posto isso, vale ressaltar ainda que a quantificação estatística sem uma sólida base teórica não passa de um mero recurso matemático instrumental, ao invés de se configurar como um procedimento científico. A Estatística não pode ser concebida, portanto, como tendo um fim em si mesma, mas como um meio eficaz e eficiente para melhor se compreender qualiquantitativamente a realidade empírica investigada, seja em seu aspecto social, político, econômico, cultural, ético, moral ou educacional.      

 

Referências

BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Ética em pesquisa. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/comissao/conep/docanalise.html>;. Acesso em: 12/12/1996.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 3.ed. São Paulo: Cortez, 1998.

CORDANI, L. K. Algumas considerações sobre a inferência estatística. In: MACHADO, N. J.; CUNHA, M. O. (Orgs.). Linguagem, conhecimento, ação: ensaios de epistemologia e didática. São Paulo: Escrituras, p.337-346, 2003. (Coleção Ensaios Transversais – v.23).

DEMO, P. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados, 1996.

______. Pesquisa: princípio científico e educativo. 8.ed. São Paulo: Cortez, 2001. (Coleção Biblioteca da Educação – Série I: Escola – v.14).

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 25.ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2002.

GODOY, A. S. Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades. In: Revista de Administração de Empresas. São Paulo: EDUSP, v.35, n.2, p.57-63, mar./abr., 1995.

GÜNTHER, H. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta é a questão? In: Revista Psicologia: teoria e pesquisa. Brasília: Editora da UnB, v.22, n.2, p.201-210, mai./ago., 2006.

PESCUMA, D.; CASTILHO, A. P. F. Projeto de pesquisa: o que é? como fazer? – um guia para sua elaboração. 3.ed. São Paulo: Editora Olho d’Água, 2005.

RIBEIRO JÚNIOR, J. O que é positivismo. 8.ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Coleção Primeiros Passos – v.72).

ROESCH, S. M. A. Projetos de estágio do curso de administração: guia para pesquisas, projetos, estágios e trabalhos de conclusão de curso. São Paulo: Atlas, 1996.

SANTOS, M. P. Educação estatística na escola: teorias e práticas. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2012.

SANTOS FILHO, J. C. Pesquisa quantitativa versus pesquisa qualitativa: o desafio paradigmático. In: SANTOS FILHO, J. C.; GAMBOA, S. S. (Orgs.). Pesquisa educacional: quantidade-qualidade. 3.ed. São Paulo: Cortez, p.13-59, 2000. (Coleção Questões da Nossa Época – v.42).

TEIXEIRA, E. B. A análise de dados na pesquisa científica. In: Revista Desenvolvimento em Questão. Itajaí: Editora da UNIJUÍ, ano 1, n.2, p.177-201, jul./dez., 2003.

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é mestre em Educação – linha de pesquisa “Formação de Professores” (2005); especialista em Administração, Supervisão e Orientação Educacional (2004); especialista em Matemática (2003) e licenciado em Matemática (2000) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG/PR). Licenciado em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE/PR). Membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG desde abril de 2014. Escritor, poeta, cronista, articulista e pesquisador da área educacional (Formação de Docentes, Tecnologias Educacionais e Educação Matemática). Atualmente é doutorando em Educação, linha de pesquisa “Ensino e Aprendizagem”, pela UEPG/PR e exerce a função de professor adjunto e membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do Curso de Licenciatura em Pedagogia da Faculdade Sagrada Família (FASF), em Ponta Grossa/PR. Endereço eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.    

 

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