Dicas são apresentadas na forma de perguntas e respostas

Marcos Pereira dos Santos (*)

estudo6Nas universidades, tanto em cursos de graduação quanto de pós-graduação, a elaboração de alguns trabalhos acadêmicos de pesquisa científica, tais como: ensaios, artigos, informes, resumos, sinopses, resenhas, papers, relatórios, monografias, dissertações e teses, entre outros, ainda se configura como uma espécie de “bicho de sete cabeças” para muitos estudantes e professores.

Em linhas gerais, pode-se dizer que essa preocupação em relação ao como desenvolver tais trabalhos científicos estão diretamente atrelados à falta de domínio da escrita acadêmica por parte de alguns pesquisadores e à quantidade, muitas vezes excessiva, de normas técnicas existentes para a apresentação e elaboração de trabalhos acadêmicos em geral.

Escrever textos científicos não é uma tarefa fácil, pois requer dos pesquisadores dedicação, tempo disponível, hábito de leitura, domínio da linguagem escrita, conhecimento aprofundado acerca do tema a ser abordado e certa dose de paciência. Trata-se de uma atividade complexa, porém não impossível de ser realizada.

No intuito de desmistificar alguns tabus e estereótipos que gravitam em torno do processo de elaboração de trabalhos acadêmicos de pesquisa, buscamos neste texto apresentar, mesmo que de forma breve, algumas dicas úteis e práticas para o desenvolvimento de ensaios científicos de cunho filosófico, os quais, vinculados a temáticas próprias da Filosofia, exigem um nível diferenciado de estrutura textual e atenção redobrada por parte de acadêmicos e professores da área, bem como de outros campos do conhecimento (Matemática, Pedagogia, Direito, Sociologia etc.) que abordam questões de âmbito filosófico.

Eis, portanto, algumas perguntas e respostas concernentes ao o que é e como se faz um ensaio científico-filosófico: 

1. O que é ensaio filosófico?

Ensaio filosófico é um texto argumentativo em que se defende uma posição, ideia ou concepção sobre um determinado problema filosófico. Uma vez que a melhor maneira de formular um problema é fazer uma pergunta, o objetivo principal de um ensaio filosófico é responder a uma indagação e defender essa resposta, oferecendo argumentos condizentes e refutando as objeções.

2. O que se espera que um estudante mostre ao escrever um ensaio?

Um ensaio deve mostrar que o seu autor sabe relacionar o problema formulado com as teorias científicas existentes e os argumentos em causa. É por isso que um ensaio deve ter a forma de resposta a uma pergunta. A essa pergunta, há de ser possível responder com um “sim” ou com um “não”, procurando o estudante, em seguida, avaliar criticamente os principais argumentos em confronto; de modo a tomar uma posição pessoal na disputa. Num ensaio, o estudante não pode limitar-se a dar apenas a sua opinião. Tem também de avançar com argumentos e de responder aos argumentos contrários. Caso não lhe pareça possível defender uma das partes, deverá dizer, ainda assim, por quê.

3. Como escolher o título do ensaio?

A melhor maneira de intitular o ensaio é apresentar, o mais claramente possível, o problema que se vai tratar. E o melhor modo de fazê-lo é elaborar uma pergunta.

Eis, pois, alguns exemplos de títulos de ensaios:

* Será que os animais têm direitos?

* É a existência do mal compatível com a existência de Deus?

* Terá a lógica lugar na filosofia?

* Deveremos avaliar uma ação unicamente em função das suas consequências?

* Será que todas as obras de arte expressam sentimentos?

Sejam, outrossim, os seguintes títulos:

* Os direitos dos animais.

* Deus e o mal.

* A lógica filosófica.

* O consequencialismo.

* A arte e a expressão de sentimentos.

Embora possam ser adequados em ensaios mais longos e abrangentes, os mesmos devem ser evitados em ensaios filosóficos, pois não parecem obrigar os seus autores a tomar posição nem a ser críticos e argumentativos.

4. Como se prepara um ensaio?

Leia criticamente os textos indicados pelo professor, e que tratam do tema proposto. Nessa leitura, procure identificar as teses em confronto e os argumentos que as sustentam. Procure também assegurar-se de compreender corretamente o que está em causa. Uma boa ideia é discutir o problema em xeque e os argumentos com outras pessoas. Consequentemente, isso lhe dará uma ideia mais clara acerca da complexidade do problema elaborado e da força dos argumentos subjacentes. Uma vez realizada a leitura crítica dos textos indicados pelo professor e formulado corretamente o problema de pesquisa, faça um rascunho (esboço) do ensaio, indagando para si mesmo: Qual a tese a defender? Que argumentos apresentar? Em que ordem? Quais as objeções a discutir? Quando? O que se pretende introduzir pressupõe uma discussão anterior? Ademais, tenha em mente que a clareza do seu ensaio depende, em grande parte, da sua estrutura. Por isso, é importante começar por determinar o que se propõe fazer e como fazê-lo.

5. Como se deve estruturar um ensaio?

Habitualmente, um ensaio apresenta três partes distintas, a saber: a introdução, o corpo (desenvolvimento) do ensaio e as considerações finais. É interessante salientar que, num ensaio, apesar de a introdução ser a primeira coisa que se lê, é geralmente a última parte a ser escrita; isso porque só depois da redação final é possível ter uma visão de conjunto do ensaio.

Grosso modo, um ensaio deve ser estruturado de acordo com as seguintes regras:

1ª) Formule o problema.

2ª) Diga qual é o objetivo do ensaio.

3ª) Mostre a importância do problema.

4ª) Identifique as principais teses concorrentes.

5ª) Apresente a tese que quer defender.

6ª) Explicite os argumentos a favor dessa proposição.

7ª) Apresente as principais objeções ao que acabou de ser defendido.

8ª) Responda às objeções.

9ª) Tire as suas próprias “conclusões” a respeito.

6. Como se formula o problema de pesquisa do ensaio?

Em geral, um ensaio começa a ser elaborado pelo problema de pesquisa. Mas, muitas vezes, não basta formular o problema o mais objetivamente possível para as coisas ficarem completamente claras e, assim, não haver margem para possíveis dúvidas ou ambiguidades. Se, por exemplo, perguntamos se os animais têm direitos, é preciso dizer exatamente que direitos são esses e dar exemplos concretos. Ademais, deve-se, igualmente, deixar bem claro se está se referindo a todos os animais ou somente a alguns deles.

7. Como explicitar o objetivo do ensaio?

Um ensaio pode ter diferentes objetivos. Se o seu intuito é oferecer razões para acreditar numa determinada tese, então deve dizer que é isso o que vai procurar fazer. Um erro frequente, ao escrever um ensaio, é não saber exatamente qual o objetivo que se tem em mente, ao fazê-lo. Se não sabemos onde queremos chegar, dificilmente saberemos que caminho escolher. O resultado disso é, grosso modo, um ensaio repleto de afirmações vagas e inadequadamente defendidas. Um objetivo claramente definido é mais do que meio caminho andado para um ensaio estar bem estruturado.

8. Como mostrar, num ensaio, a importância do problema de pesquisa?

Num ensaio, deve-se procurar mostrar por que razão é importante que nos ocupemos do problema de que se fala. Uma maneira de fazer isso é explicitar o que estaríamos perdendo se não o fizéssemos. Suponhamos, por exemplo, que se pergunta se a lógica formal tem lugar, na Filosofia. Por que razão devemos nos ocupar disso? Se você escolheu ocupar-se desse problema é porque o considera importante. Nesse caso, sua resposta deve mostrar, por exemplo, que se não nos preocupássemos com a forma do raciocínio, não só nos arriscaríamos a cometer erros de raciocínio, mas também a não compreender os raciocínios dos outros.

9. Como identificar as principais teses concorrentes na escrita de um ensaio?

Aqui se deve, muito brevemente, apresentar as teses mais conhecidas que respondem a essa problemática. Se, por exemplo, perguntamos se as nossas ações são boas ou más apenas em função das suas consequências, é preciso dizer que há duas teorias principais concorrentes – o consequencialismo e o deontologismo – e o que defende cada uma delas.

10. Como apresentar a tese que se pretende defender num ensaio?

Nesse momento, deve-se apresentar a sua posição. Isso deve ser feito mostrando qual é a proposição que será defendida. Por exemplo: em relação ao problema de saber se a existência do mal é compatível com a existência de Deus, você pode tornar clara a sua posição começando por dizer, caso a sua resposta seja afirmativa, que defende a proposição expressa pela frase “Deus existe, apesar de haver o mal no mundo”, e explicar sucintamente o que isso significa. Em certos casos, é possível e desejável apresentar exemplos dos tipos de ideias que se quer defender.

11. Como explicitar, num ensaio, os argumentos a favor de uma proposição?

Deve-se apresentar cuidadosamente os argumentos a favor da proposição que se quer defender. É recomendável fazer uso de alguns argumentos tradicionais, discutidos por filósofos mais conhecidos. Nesse caso, devemos nos concentrar apenas em dois ou três argumentos que nos pareçam ser os mais fortes e expô-los com as próprias palavras, tentando mostrar que são válidos e que as suas premissas são verdadeiras ou plausíveis. Um erro a ser evitado é pensar que não há necessidade de muita argumentação para defender uma proposição que é, para você, evidente: afinal, já a aceitamos. Mas, muitas vezes, temos tendência a sobreestimar as nossas convicções. Assim, devemos partir do princípio de que o leitor (ainda) não aceita a nossa posição, e pensar o ensaio como uma tentativa de persuadi-lo.

12. Como apresentar as principais objeções ao que se pretende defender num ensaio?

É preciso enfrentar as principais objeções aos seus argumentos, quer indicando possíveis contra-exemplos ao que é afirmado em alguma das premissas, quer disputando a sua plausibilidade, quer questionando a validade dos próprios argumentos. Você deve procurar as objeções que lhe parecem mais “fortes” e não escolher apenas as mais “fracas” e fáceis de responder. Nessa parte, devemos nos apoiar nas leituras que foram previamente recomendadas pelo professor. Tornar-se profícuo, pois, apresentar as objeções com suas próprias palavras, e não limitar-se a citar os autores consultados. Dessa forma, você mostra compreender o que escreve.

13. Como responder às objeções num ensaio?

Uma vez apresentadas as objeções à sua tese, deve-se dizer o que há de errado com elas, ou como respondê-las.

14. Num ensaio, como o autor deve apresentar as suas “conclusões”?

Finalmente, deve o autor do ensaio resumir brevemente o seu argumento principal e expor as suas dúvidas, caso existam. Mesmo que se incline mais para uma das respostas concorrentes, não se deve hesitar em apresentar os seus “pontos fracos”. Se lhe parecer haver razões para não tomar posição na disputa, deve-se, ainda assim, expor essas razões. É preciso ter em mente que nenhum argumento é mais “forte” do que a sua premissa mais “fraca”. Enfim: você não deve apresentar seja o que não tenha sido dito anteriormente no corpo (desenvolvimento) do ensaio.

15. O que se avalia num ensaio?

A avaliação que se fará de um ensaio em nada depende do fato de corroborar ou não com a “conclusão” a que chega o autor do mesmo. Se você pretende defender, por exemplo, que Deus existe, apesar de existir também o mal, a avaliação do seu ensaio em nada depende do fato de o seu professor ser ou não ser ateu. É possível que não estejamos de acordo quanto ao que seria a melhor solução para o problema abordado, mas também não é difícil que se esteja em concordância sobre se a maneira como chega à solução apresentada é correta ou não.

Em suma, ao avaliar um ensaio o professor deve, por exemplo, perguntar para si próprio:

* O problema apresentado está corretamente formulado?

* A importância do problema é mostrada pelo autor?

* O autor explicita as principais teses concorrentes?

* A tese que o autor defende é “óbvia” para o leitor?

* Os argumentos apresentados são bons e não há falácias evidentes?

* As principais objeções são explicitadas no ensaio?

* As objeções apresentadas pelo autor são refutadas?

* As “conclusões” expostas são coerentes em relação a premissas?

* A prosa é fácil de ler e compreender?

* As ideias são apresentadas de forma pessoal?

16. Como se classifica um ensaio?

É provável que o seu ensaio satisfaça alguns critérios totalmente, alguns parcialmente e, eventualmente, não satisfaça outros. Em geral, é possível argumentar que todos os critérios são importantes, mas não numa mesma escala de igualdade. Pode-se observar, por exemplo, que tornar “óbvia”, para o leitor, a tese que se pretende defender no ensaio é mais importante do que estabelecer claramente a importância do problema de pesquisa, ou que é mais importante apresentar bons argumentos do que refutar as objeções. Mas, dificilmente estaríamos de acordo quanto ao que é mais importante. Além disso, ainda que chegássemos a um sistema rigoroso de atribuição de “pesos” a cada um dos critérios estabelecidos, aplicá-lo poderia tornar a avaliação de um ensaio, de algumas páginas, uma tarefa quase impossível; sem contar que tal sistema poderia acabar por revelar-se inútil. Portanto, em matéria de avaliação, não há regras infalíveis. Sendo assim, é possível classificar um ensaio científico como sendo péssimo, ruim, bom, ótimo ou excelente.

 

Face ao exposto, almejamos que as dicas aqui apresentadas possam, efetivamente, auxiliar professores e estudantes universitários de diferentes cursos de graduação e pós-graduação no processo de elaboração de ensaios científicos de viés filosófico. Conforme dito anteriormente, trata-se apenas da exposição de algumas dicas, ou melhor, pistas didático-metodológicas; e não de “receitas” ou regras “engessadas”, uma vez que criatividade é o seu contrário. Dizemos isso, porque entendemos que, para redigir um ensaio científico-filosófico, é preciso seguir alguns “passos” logicamente ordenados.

Ademais, o ensaio científico deve ser concebido como uma proposta de pretensão científica, dentro de certo raio de liberdade de expressão por parte do pesquisador. Diz respeito a um texto opinativo-argumentativo, que pode ser mais ou menos formal, dependendo dos objetivos propostos. Todavia, faz-se imprescindível não exagerar na opinião pessoal, esquecendo a argumentação. Por sua tendencial brevidade, o ensaio científico equivoca-se completamente quando permanece apenas em “achismos” subjetivos, “considerações gerais”, “reflexões frouxas”, “achegas que não chegam”. Daí a importância de o pesquisador atentar para alguns cuidados didático-metodológicos específicos. Se bem escrito, um ensaio científico torna-se arte de primeira linha para a comunicação científica. Pensemos nisso, e “mãos à obra”.       

 

Referências

DEMO, P. Metodologia da investigação em educação. Curitiba: Editora do IBPEX, 2003. (Coleção Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Metodologias Inovadoras Aplicadas à Educação – modalidade a distância).

GOMES, B. F. Ensaios de pesquisa filosófica. São Paulo: Perspectiva, 1986.

GRANGER, G. G. Filosofia do estilo. São Paulo: Perspectiva/EDUSP, 1974.

MARTINS, R. B. Metodologia científica: como tornar mais agradável a elaboração de trabalhos acadêmicos. Curitiba: Juruá, 2004.

SANTOS, A. R. Metodologia científica: a construção do conhecimento. 5.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 22.ed. São Paulo: Cortez, 2002.

VITIELLO, N. Redação e apresentação de comunicações científicas. São Paulo: BYK, 1998.

VIVEIROS PINTO, A. Ciência e existência: problemas filosóficos da pesquisa científica. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1979.

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é doutorando em Educação, linha de pesquisa “Ensino e Aprendizagem”, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Escritor, poeta, cronista e articulista. Professor adjunto de Filosofia Geral e Filosofia da Educação na Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná. Endereço eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.