Métodos de ensino devem ser adaptados para a geração internet?

118px-InternetGenerationDa última vez que você esqueceu onde se encontrava determinado assunto ou material para apresentar em suas aulas, não deve ter se preocupado muito. Simplesmente, "googlou" (do verbo "googlar") e achou o que precisava. Certo?

Antigamente, como arquivávamos os documentos em papéis, sabíamos mais ou menos em que parte "física" do armário ou estante havíamos guardado um documento. Atualmente, fazemos algo parecido, porém no formato digital. Uma coisa é certa: na era Google, a nossa forma de pensar e de memorizar mudou bastante.

Se a forma de pensamento e memorização da nossa geração (a dos professores) mudou, imagine a da geração dos alunos atuais, mais jovens, que praticamente nasceram conectados à internet. Se houve essa mudança na mente dos alunos, a forma de ensino não deve se adaptar a essa mudança?

No artigo publicado em novembro passado no Professornews (Como fazer boa apresentação em sala de aula), falamos sobre a capacidade de aprendizagem e nivelamento de conhecimento.

Nesse artigo, apresentamos os princípios da Teoria da Carga Cognitiva, que trata da capacidade que o cérebro humano tem de assimilar informações. Para que o aprendizado de um assunto seja eficaz, é necessário que o aluno se concentre em capacidade auditiva ou visual, de forma não simultânea.

120px-Google wordmark.svgEm julho passado, já havíamos publicado uma matéria em que uma pesquisa realizada pela psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade de Columbia, comprova essa transformação social. Para saber mais, leia a matéria: Estudo da Universidade de Columbia conclui que memória funciona de forma diferente na era Google.

De acordo com a pesquisa, publicada na revista Science em julho passado, esquecemos de coisas que estamos confiantes de que podemos encontrar na internet e, por outro lado, estamos mais propensos a lembrar de coisas que achamos que não estão disponíveis on-line. A pesquisa mostra também que somos mais capazes de lembrar onde encontrar algo na internet do que lembrar a informação em si.

Em outro artigo, publicado no início de dezembro com o título Is Google making Scientists Dumber? no site BitesizeBio, Emily Crow, que é PhD em Ciências da Vida pela Northwestern University, explica um pouco mais essa transformação social.

O Google está mudando o modo como pensamos e lembramos. Por que isso acontece? Como isso afeta o nosso cérebro? Emily Crow explica em seu artigo o que está ocorrendo e as consequências. Confira a seguir.

1 – Os serviços Google como extensões do conhecimento

Vários softwares fazem parte do nosso dia a dia. A seguir, citamos algumas das ferramentas da "família Google".

Google Search (ou simplesmente Google) – É o serviço mais usado na internet. Tudo que você quer saber está a um clique de distância. Digite a palavra ou frase que você quer pesquisar e milhares de fontes de informação estarão acessíveis em menos de um segundo.

Google Maps – O guia de ruas em papel tornou-se obsoleto. Com essa ferramenta, você não precisa mais memorizar endereços e direções.

Google Agenda – Nunca esquece um compromisso. Essa ferramenta lembra todos os seus compromissos; portanto, você não precisa memorizar as datas importantes.

Google Docs – Guarda suas anotações, documentos e outras coisas mais. Você não precisa se preocupar onde, ou se guardou algum arquivo. Pode compartilhar documentos.

Google Reader – Não há necessidade de se estressar tentando lembrar o nome daquele site que você gosta de visitar. É só se inscrever nos sites favoritos e receber atualização de conteúdos via RSS (ferramenta que informa a atualização de conteúdo de um site).

Google Translator – O Google traduz automaticamente páginas inteiras para sua língua nativa, além de checar a ortografia e a pronúncia.

Google Images – Não consegue se lembrar do nome do monumento ou da pintura? Não se preocupe. Tire uma foto com seu Smartphone e o Google irá ajudá-lo a descobrir o nome do objeto para o qual você está olhando.

Google Analytics – Essa ferramenta ajuda você a controlar e analisar o tráfico de seu site; portanto, não precisa fazer anotações ou controles manuais.

2 – Como o Google está mudando a memória?

Veja as diferenças entre "antes" e "agora".

No passado (sem Google)

Sem acesso a internet, nós tínhamos opções limitadas de fonte para pesquisa. Éramos obrigados a descobrir a melhor forma de memorizar se quiséssemos lembrar de algo importante, usando a memória visual e fazendo associações.

Logo, quando precisávamos da informação, era mais provável que lembrássemos, pois havíamos gasto o tempo necessário para gravar a informação na nossa mente.

No presente (com Google)

Com a internet, tudo está a um clique de distância. Quando não sabemos algo, estamos condicionados a ligar o computador para resolver a questão. Com sistemas de busca disponíveis a qualquer hora e local, não costumamos codificar a informação internamente, pois quando precisarmos, é só procurar na internet.

Logo, quando a informação é guardada externamente, não costumamos memorizá-la, mas sim lembrar o lugar onde podemos descobrí-la.

3 – Consequências

A simbiose criada com as ferramentas de nosso computador, torna-nos dependentes dele. Ou seja, a "máquina" torna-se nossa amiga íntima, "de confiança". Emily Crow coloca uma questão: isso é uma coisa ruim ou boa? Segundo suas análises, existem consequências boas e ruins.

Consequências boas:

a) guardamos a informação em nossas memórias baseadas no computador e elas se tornaram mais acessíveis;
b) a recuperação de dados ou informação é fácil; na maioria das vezes que precisamos delas, conseguimos lembrar e o Google ajuda-nos a evitar erros;
c) a informação acessível não necessariamente enfraquece a memória; ela pode reforçá-la e ser uma grande fonte de inovação.

Consequências ruins:

a) as ferramentas eletrônicas substituíram nossa necessidade de memorizar muitos detalhes e, na falta delas, podemos ficar sem informação ou ação (lembram daquela costumeira justificativa: "sinto muito, o sistema está fora do ar"?);
b) os novos hábitos podem interferir no desenvolvimento do conhecimento profundo e conceitual (os conhecimentos tornam-se superficiais);
c) a internet está repleta de informação incorreta, o que pode nos induzir a erros, se não tomarmos cuidado ao utilizarmos determinados dados ou informações.

Tudo que expusemos neste artigo, ainda é muito pouco. Até que ponto as técnicas de ensino tradicionais precisam ser adaptadas ou ajustadas em função da transformação que está ocorrendo na forma de aprendizagem e memorização dos nossos alunos? É uma boa questão para refletirmos durante o novo ano que se inicia.

Fontes:  BitesizeBio; Columbia University; Professornews

Reflexões sobre a necessidade de adaptar as técnicas de ensino tradicionais
Prof. Masakazu Hoji (*)
Da última vez que você esqueceu onde se encontrava determinado assunto ou material para apresentar em suas aulas, não deve ter se preocupado muito. Simplesmente, "googlou" (do verbo "googlar") e achou o que precisava. Certo? ... Ou quase isso.
Antigamente, como arquivávamos os documentos em papéis, sabíamos mais ou menos em que parte "física" do armário ou estante havíamos guardado um documento. Atualmente, fazemos algo parecido, porém no formato digital. Uma coisa é certa: na era Google, a nossa forma de pensar e de memorizar mudou bastante.
Se a forma de pensamento e memorização da nossa geração (a dos professores) mudou, imagine a da geração dos alunos atuais, mais jovens, que praticamente nasceram conectados com a internet. Se houve essa mudança na mente dos alunos, a forma de ensino deve se adaptar a essa mudança.
No artigo publicado em novembro passado no Professornews (Como fazer boa apresentação em sala de aula), falamos sobre a capacidade de aprendizagem e nivelamento de conhecimento.
Nesse artigo, apresentamos os princípios da Teoria da Carga Cognitiva, que trata da capacidade que o cérebro humano tem de assimilar informações. Para que o aprendizado de um assunto seja eficaz, é necessário que o aluno se concentre em capacidade auditiva ou visual, de forma não simultânea.
Em julho passado, já havíamos publicado uma matéria em que uma pesquisa realizada pela psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade de Columbia, comprova essa transformação social. Leia a matéria: Estudo da Universidade de Columbia conclui que memória funciona de forma diferente na era Google.
De acordo com a pesquisa, publicada na revista Science em julho passado, esquecemos de coisas que estamos confiantes de que podemos encontrar na internet e, por outro lado, estamos mais propensos a lembrar de coisas que achamos que não estão disponíveis on-line. A pesquisa mostra também que somos mais capazes de lembrar onde encontrar algo na internet do que lembrar a informação em si.
Em outro artigo, publicado no início de dezembro com o título Is Google making Scientists Dumber? no site BitesizeBio, Emily Crow, que é PhD em Ciências da Vida pela Northwestern University, explica um pouco mais essa transformação social.
O Google está mudando o modo como pensamos e lembramos. Por que isso acontece? Como isso afeta o nosso cérebro? Emily Crow explica em seu artigo o que está ocorrendo e as consequências. Confira a seguir.
1 – Os serviços Google como extensões do conhecimento
Vários softwares fazem parte do nosso dia a dia. A seguir, citamos algumas das ferramentas da "família Google".
Google Search (ou simplesmente Google) – É o serviço mais usado na internet. Tudo que você quer saber está a um clique de distância. Digite a palavra ou frase que você quer pesquisar e milhares de fontes de informação estarão acessíveis em menos de um segundo.
Google Maps – O guia de ruas em papel tornou-se obsoleto. Com essa ferramenta, você não precisa mais memorizar endereços e direções.
Google Agenda – Nunca esquece um compromisso. Essa ferramenta lembra todos os seus compromissos; portanto, você não precisa memorizar as datas importantes.
Google Docs – Guarda suas anotações, documentos e outras coisas mais. Você não precisa se preocupar onde, ou se guardou algum arquivo. Pode compartilhar documentos.
Google Reader – Não há necessidade de se estressar tentando lembrar o nome daquele site que você gosta de visitar. É só se inscrever nos sites favoritos e receber atualização de conteúdos via RSS (ferramenta que informa a atualização de conteúdo de um site).
Google Translator – O Google traduz automaticamente páginas inteiras para sua língua nativa, além de checar a ortografia e a pronúncia.
Google Images – Não consegue se lembrar do nome do monumento ou da pintura? Não se preocupe. Tire uma foto com seu Smartphone e o Google irá ajudá-lo a descobrir o nome do objeto para o qual você está olhando.
Google Analytics – Essa ferramenta ajuda você a controlar e analisar o tráfico de seu site; portanto, não precisa fazer anotações ou controles manuais.
2 – Como o Google está mudando a memória?
Veja as diferenças entre "antes" e "agora".
No passado (sem Google)
Sem acesso a internet, nós tínhamos opções limitadas de fonte para pesquisa. Éramos obrigados a descobrir a melhor forma de memorizar se quiséssemos lembrar de algo importante, usando a memória visual e fazendo associações.
Logo, quando precisávamos da informação, era mais provável que lembrássemos, pois havíamos gasto o tempo necessário para gravar a informação na nossa mente.
No presente (com Google)
Com a internet, tudo está a um clique de distância. Quando não sabemos algo, estamos condicionados a ligar o computador para resolver a questão. Com sistemas de busca disponíveis a qualquer hora e local, não costumamos codificar a informação internamente, pois quando precisarmos, é só procurar na internet.
Logo, quando a informação é guardada externamente, não costumamos memorizá-la, mas sim lembrar o lugar onde podemos descobrí-la.
3 – Consequências
A simbiose criada com as ferramentas de nosso computador, torna-nos dependentes dele. Ou seja, a "máquina" torna-se nossa amiga íntima, "de confiança". Emily Crow coloca uma questão: isso é uma coisa ruim ou boa? Segundo suas análises, existem consequências boas e ruins.
Consequências boas:
a) guardamos a informação em nossas memórias baseadas no computador e elas se tornaram mais acessíveis;
b) a recuperação de dados ou informação é fácil; na maioria das vezes que precisamos delas, conseguimos lembrar e o Google ajuda-nos a evitar erros;
c) a informação acessível não necessariamente enfraquece a memória; ela pode reforçá-la e ser uma grande fonte de inovação.
Consequências ruins:
a) as ferramentas eletrônicas substituíram nossa necessidade de memorizar muitos detalhes e, na falta delas, podemos ficar sem informação ou ação (lembram daquela costumeira justificativa: "sinto muito, o sistema está fora do ar"?);
b) os novos hábitos podem interferir no desenvolvimento do conhecimento profundo e conceitual (os conhecimentos tornam-se superficiais);
c) a internet está repleta de informação incorreta, o que pode nos induzir a erros, se não tomarmos cuidado ao utilizarmos determinados dados ou informações.
Tudo que expusemos neste artigo, ainda é muito pouco. Até que ponto as técnicas de ensino tradicionais precisam ser adaptadas ou ajustadas em função da transformação que está ocorrendo na forma de aprendizagem e memorização dos nossos alunos? É uma boa questão para refletirmos durante o novo ano que se inicia.

Fontes:  BitesizeBio; Columbia University; Professornews
(*) Prof. Masakazu Hoji é diretor do Portal Professornews