Medo, calafrio e angústia são, por exemplo, as reações psicológicas mais comuns

Marcos Pereira dos Santos (*)

estudo6Dentre todos os trabalhos acadêmicos requisitados pelos professores no ensino superior (resumos, resenhas, fichamentos, papers, ensaios e artigos científicos, relatórios de pesquisa e de estágio curricular supervisionado, informes científicos etc.), o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ainda tem se configurado como uma “pedra de tropeço”, um “bicho de sete cabeças” (PESSOA, 2005) na vida acadêmica de muitos estudantes universitários.

Medo, calafrio e angústia são, por exemplo, as reações psicológicas mais comuns apresentadas por alguns acadêmicos ao ouvirem falar em TCC. Entretanto, ele é um dos requisitos básicos, de cunho avaliativo, exigidos pelas instituições de ensino superior como condição indispensável para que os estudantes-formandos sejam capazes de concluir, com êxito, seus cursos de graduação (bacharelado e licenciatura). Refere-se a um texto dissertativo monográfico (do grego mono = um só + graphia = escrita), de viés crítico-reflexivo, versando sobre questões teórico-práticas concernentes a uma determinada temática de pesquisa científica. É, pois, um estudo minucioso no qual se propõe esgotar, ao menos em parte, um tema relativamente restrito.

Em outras palavras, pode-se dizer ainda que o TCC:

[...] consiste em um trabalho científico, em um texto escrito com o objetivo principal de apresentar os resultados de uma pesquisa científica à comunidade acadêmica ao final do curso de graduação. Visa aprimorar a formação científica dos estudantes universitários por intermédio da produção escrita. Trata-se, em suma, da realização de um estudo científico por parte de um acadêmico-pesquisador, com a supervisão atenta e cuidadosa de um professor-orientador devidamente designado para esse fim, a partir da escolha de um tema, da delimitação de um problema (assunto ou objeto de pesquisa) e da utilização de métodos próprios de investigação científica. (SOUZA; FIALHO e OTANI, 2007, p.77)

Apesar de se constituir num só assunto a desenvolver, o TCC não pode ser encarado pelos estudantes universitários como um “simples” trabalho acadêmico, mas como uma investigação científica que precisa seguir uma rigorosa e detalhada metodologia de pesquisa. Deve apresentar uma significativa contribuição para o avanço da Ciência, e não apenas uma compilação de obras científicas de diferentes autores que abordam a temática de pesquisa em foco.

Dizemos isso, porque corroboramos com Martins Júnior (2009) ao assegurar que o TCC, mais do que ser parte integrante da jornada acadêmica, se configura como uma oportunidade excelente para os acadêmicos exporem seus conhecimentos científicos (teóricos e práticos) adquiridos no decorrer da realização do curso de graduação. É uma forma eficaz e eficiente de os estudantes universitários demonstrarem as suas habilidades, capacidades e competências técnicas, humanas e intelectuais; tendo em vista, inclusive, a sua atuação profissional no competitivo mercado de trabalho.

Mas, afinal, por que o TCC (ainda) é tão temido por um grande contingente de estudantes universitários nos dias atuais?

Com base em nossa vasta experiência profissional como docente na educação superior, pode-se dizer que algumas das razões que explicam, em certa medida, os temores demonstrados por muitos estudantes universitários em relação ao TCC são:

a) a precariedade do ensino ministrado nas disciplinas de Língua Portuguesa e Redação em muitas escolas brasileiras de educação básica;

b) a falta de hábito de leitura por parte dos acadêmicos; 

c) o desconhecimento dos estudantes universitários acerca dos procedimentos teóricos, técnicos e didático-metodológicos referentes ao desenvolvimento de pesquisas científicas;

d) o medo de escrever propriamente dito;

e) o receio de expor ideias, opiniões, concepções e ideologias tanto de forma oral/verbal quanto escrita; e

f) o medo das arguições e críticas (nem sempre construtivas) realizadas pelos membros componentes da Banca Examinadora quando da defesa pública do TCC.

No intuito de erradicar ou, ao menos, minimizar os temores mais latentes apresentados por vários acadêmicos no que diz respeito à elaboração do TCC, faz-se extremamente necessário:

1) ressignificar/redimensionar o ensino das disciplinas de Língua Portuguesa e Redação na escola de ensino fundamental e médio;

2) criar nos estudantes o hábito de leitura;

3) dar aos estudantes universitários sólido suporte teórico, técnico e didático-metodológico para a realização de pesquisas acadêmicas de teor científico;

4) incentivar os acadêmicos a escrever, sem medo, diferentes tipos/estilos/gêneros de texto: descritivo, narrativo, dissertativo, jornalístico, humorístico e literário – épico, lírico, poesia, drama, tragédia, comédia, tragicomédia, prosa, epopeia, ficção, romance, conto, crônica, poema, novela etc. (FARACO e MOURA, 1993);

5) possibilitar condições favoráveis para que os estudantes possam expor, de forma oral/verbal e escrita, suas ideias, opiniões, concepções e ideologias em sala de aula, argumentando e contra-argumentando de forma lógica e coerente;

6) subsidiar teórica, técnica e metodologicamente os acadêmicos acerca das fases/etapas constituintes de um projeto de pesquisa científica (elementos constitutivos): tema, assunto, justificativa, problema de pesquisa, hipóteses, objetivos norteadores (geral e específicos), referencial teórico (revisão de literatura ou estado da arte), metodologia de pesquisa (abordagem de pesquisa, tipo de pesquisa e formas de coleta, tabulação, codificação, decodificação, apresentação, descrição, análise e interpretação dos dados – empíricos e não empíricos – coletados), cronograma de atividades a serem executadas, recursos (humanos, físicos, materiais e financeiros) e referências (bibliográficas e eletrônicas) utilizadas (PESCUMA e CASTILHO, 2006); e

7) estimular os estudantes para a realização de atividades de simulação de pré-defesas dos TCCs em sala de aula, a partir da mediação dos professores das disciplinas de “Metodologia da Pesquisa Científica” e “Seminário Integrado e Trabalho de Conclusão de Curso”.

Posto isto, cabe-nos, em última instância, desejar aos estudantes universitários êxito em suas pesquisas acadêmico-científicas. Todavia, isso somente será possível quando, verdadeiramente, forem desmitificados todos os tabus, estereótipos e preconceitos que, direta ou indiretamente, gravitam em torno das ações de ler e escrever academicamente. Assim como o ato de ouvir é requisito fundamental para o desenvolvimento da fala/linguagem, também a leitura é, de acordo com Barreto e Mesquita (1997), elemento precedente e imprescindível para o desenvolvimento do processo de escrita. Pensemos a respeito!               

 

Referências    

BARRETO, J. A. E.; MESQUITA, J. V. C. A escrita acadêmica: acertos e desacertos. Fortaleza: Editora Casa de José de Alencar, 1997. (Coleção Alagadiço Novo – v.145).

FARACO, C. E.; MOURA, F. M. Língua portuguesa e literatura. v.1. 2.grau. 13.ed. São Paulo: Ática, 1993.

MARTINS JÚNIOR, J. Como escrever trabalhos de conclusão de curso: instruções para planejar e montar, desenvolver, concluir, redigir e apresentar trabalhos monográficos e artigos. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

PESCUMA, D.; CASTILHO, A. P. F. Projeto de pesquisa: o que é? como fazer? – um guia para sua elaboração. 3.ed. São Paulo: Editora Olho d’ Água, 2005. (Coleção Método – v.3).

PESSOA, S. Dissertação não é bicho-papão: desmitificando monografias, teses e escritos acadêmicos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005. (Coleção Hiperestudos).

SOUZA, A. C.; FIALHO, F. A. P.; OTANI, N. TCC: métodos e técnicas. Florianópolis: Visual Books, 2007.  

 

prof-marcos-pereira web(*) Marcos Pereira dos Santos é doutorando em Educação Religiosa, linha de pesquisa “Cultura Geral”, pela Faculdade de Educação Teológica Fama (FATEFAMA). Mestre em Educação; especialista em Administração, Supervisão e Orientação Educacional; especialista em Educação Matemática e licenciado em Matemática pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Licenciado em Pedagogia pelo Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE). Membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG. Escritor, poeta, cronista, articulista e pesquisador da área educacional (Formação de Professores, Tecnologias Educacionais e Educação Matemática). Professor adjunto da Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná. Endereço eletrônico: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.