Mas, afinal, o que é mito? Quais as suas características e seus principais objetivos?

Marcos Pereira dos Santos (*)

louvre-estatuaA necessidade de compreender o mundo é uma característica inerente, instintiva, ao ser humano. Desde os filósofos gregos pré-socráticos (Protágoras de Abdera, Tales de Mileto, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eleia, entre outros) até os dias atuais, o homem tem buscado explicações para tudo: observando, comparando, indagando, pensando e refletindo criticamente, o que leva os seres humanos a produzirem conhecimentos de senso comum e também conhecimentos científicos em todas as áreas do saber.

Os filósofos pré-socráticos, na Grécia antiga, por volta do século V a.C., começaram a expressar diferentes opiniões, conceitos e pensamentos para tentar explicar, alegoricamente, os fenômenos ‘misteriosos’ da Natureza (origem dos raios e trovões, dos ventos, do Sol, da chuva, da lua, do fogo etc.). A (quase) tudo era atribuído um sentido metafísico, transcendental, atrelado às divindades e manifestações sobrenaturais. Criou-se um sem fim de imagens e rituais para afugentar males (seca, fome, pestes, pragas, doenças, morte, entre outros) e/ou dar significado às coisas do mundo que eram consideradas, até então, inexplicáveis.

De forma lenta e progressiva, esse modo de dar sentido às coisas foi se estendendo a todo o mundo natural. Todos os elementos passaram a fazer parte de um intrincado roteiro em que forças ‘misteriosas’ se relacionam e regem o mundo em que habitam todos os seres humanos. Durante milhares de séculos, essa tendência foi se desenvolvendo e criando forma até se transformar naquilo que, hoje, denominamos de mitologia, ou seja, estudo dos mitos em geral.

Mas, afinal, o que é mito? Qual a sua importância? Quais as suas características e seus principais objetivos?

Etimologicamente, o termo “mito” deriva do vocábulo grego mythos, que significa “palavra proferida, discurso, narrativa, rumor, notícia que se espalha, mensagem, conselho, prescrição” (CHAUÍ, 2002, p.506); levando-se em consideração o fato de que, segundo Abbagnano (2003), o verbo mythéomai corresponde às ações de dizer, conversar, contar, narrar, anunciar (um oráculo), designar, nomear, dizer a si mesmo ou deliberar em si mesmo.

A título de ilustração, é interessante destacar que Heródoto (“pai da História”) emprega a palavra mythos para se referir a tradições e relatos confirmados por testemunhas. Em contrapartida, os filósofos sofistas gregos Platão de Atenas (427-347 a. C.) e Aristóteles de Estagira (384-322 a. C.), por exemplo, utilizam esse termo no sentido de narrativa, relato alegórico/fantasioso, fábula ou lenda. Nesse contexto, o termo mythos passa, pouco a pouco, a significar o lendário e irreal, mentira, relato não histórico. Nessa acepção, portanto, mythos opõe-se a logos (razão, racionalidade); uma vez que:

A veracidade de uma explicação racional está fundamentada na coerência dos argumentos em que se baseia. Uma explicação racional não se justifica a partir de forças sobrenaturais. Ao contrário. Ela busca uma interpretação consistente e verificável para os fenômenos naturais. Assim sendo, os argumentos e as provas em que se baseia uma explicação racional devem ser submetidos à crítica, tanto em seus conteúdos quanto em seus métodos. (CHÂTELET, 1994, p.25)  

Grosso modo, pode-se dizer que mito é uma forma de conhecimento que todos os povos e todas as culturas, até então existentes, desenvolveram e, em certa medida, ainda continuam desenvolvendo de geração em geração. Em geral, o mito está associado à ideia de criações “recheadas” de fantasias, imaginação, ‘delírio’ ou historietas infantilizadas que são inventadas para tentar explicar aquilo que as pessoas não conseguem compreender de forma racional. O objetivo principal do mito consiste em desvelar, por intermédio de uma linguagem figurada/metafórica, realidades do mundo natural, concepções, teorias, práticas, pontos de vista, ideologias e valores culturais; bem como ‘atenuar’ os problemas que assolam o mundo, a sociedade e os sujeitos sociais como um todo.   

Os mitos têm origem no desejo de dominação do mundo por parte dos homens, visando assim afastar o medo e a insegurança diante dos ‘enigmáticos’ fenômenos da Natureza. Trata-se de uma forma simbólica e não científica de explicação dos fenômenos naturais que rodeiam os seres humanos. Diz respeito a um fato natural, histórico, da realidade objetiva existencial concreta que é narrado de forma alegórica e que contêm informações verdadeiras e/ou falaciosas. Isso implica assegurar que, através dos mitos, os fenômenos naturais são transformados em sobrenaturais, estando todos eles na dependência da ação de entidades sobre-humanas, divindades, deuses mitológicos do panteón do Olimpo, tais como: Zeus, Apolo, Afrodite, Vênus, Eros, Aurora, Urano, Gaia, Atena, Éris, Hera etc.; que eram responsáveis por conceder bênçãos e castigos, saúde, amor, felicidade, força, sorte, riquezas, prosperidade, fertilidade para a terra etc.  

Portanto, os mitos estão baseados no senso comum, em tabus e estereótipos, em criações fantasiosas/imagéticas e em “verdades intuídas/dogmáticas” (aquelas que não necessitam de “provas” científicas para serem aceitas), sendo os mesmos, nesse sentido, acríticos, não reflexivos e inquestionáveis, embora sejam de cunho cultural e coletivo, podendo ser apresentados em diferentes versões e admitir múltiplas interpretações (aspecto hermenêutico).    

Todavia, numa abordagem histórica, o mito assume uma dimensão mais séria e fundadora. Dizemos isso, porque o sentido fundador do mito se dá quando identificamos que as primeiras formas de interpretação do mundo, realizadas pelos filósofos gregos pré-socráticos e, posteriormente, pelos filósofos sofistas clássicos (Sócrates, Platão, Aristóteles, entre outros), se apresentaram de forma fantasiosa, alegórica, “mágica”. À guisa de exemplificação, podemos citar o “mito de Prometeu e o fogo de Zeus”, o “mito da caixa de Pandora”, o “mito da origem da Guerra de Tróia”, o “mito dos cavalos alados ou mito da carroça” e o “mito da caverna” de Platão; dentre tantos outros que poderíamos mencionar. (REALE, 1993)

Apesar de os mitos estarem fortemente presentes na sociedade grega pré-socrática e clássica, eles também fazem parte da cultura dos povos primitivos (tribos indígenas), manifestando-se através do culto realizado aos deuses (da chuva, dos raios, dos ventos, da floresta, Tupã etc.) e dos rituais religiosos desenvolvidos, dentre os quais podemos citar: os rituais de iniciação, nascimento, casamento, falecimento, purificação, de cura, exclusão social (simbolismo), de preparação para a caça e a guerra, entre outros. Ainda nesse contexto, é possível mencionar, de acordo com James (1990) e Piazza (1996), os ritos e cantos, as evocações, orações e indumentárias próprias que fazem parte da cultura religiosa dos povos africanos e afrodescendentes às suas divindades (Iemanjá, Ogum, Oxum, Oxossi, Oxalá etc.); caracterizando assim um sincretismo religioso em relação ao catolicismo – devoção à Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Judas Tadeu, Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio entre tantos(as) outros(as) personagens da história humana reconhecidos(as) pela Igreja Católica, através do Direito Canônico como santos(as).

Na sociedade moderna dos séculos XV a XVIII, apesar de todas as transformações políticas, culturais e socioeconômicas ocorridas por ocasião da invenção da imprensa de Gutenberg e do advento do Iluminismo, os mitos também se fizeram presentes no ideário e na cultura de homens e mulheres pertencentes a esses importantes períodos históricos e que, de certa forma, ainda perduram até os dias de hoje. A título de exemplificação, podemos citar: as lendas (Saci-Pererê, Boitatá, Mula-Sem-Cabeça, Boto Cor-de-Rosa etc.), os contos de fada (A Bela Adormecida, Branca de Neve e os Sete Anões, João e Maria, Chapeuzinho Vermelho, entre outros) e as fábulas (a raposa e a lebre, festa na floresta etc.).    

Apesar de toda a “parafernália eletrônica” existente na sociedade neomoderna/pós-moderna/contemporânea (século XIX aos dias atuais), os mitos ainda continua povoando o pensamento de crianças, adolescentes, jovens, adultos, homens, mulheres e idosos; apresentando-se de forma diferente, ressignificada, redimensionada, reelaborada; enfim, com uma “nova roupagem” característica dos novos tempos. Vejamos, pois, alguns exemplos de mitos que podem ser identificados em diferentes segmentos da sociedade globalizada do século XXI:

 

* Histórias em quadrinhos: Turma da Mônica (de autoria de Maurício de Sousa), O menino maluquinho e A professora maluquinha (ambos de autoria de Ziraldo).

* Desenhos animados: Superman, Homem Aranha, Batman, Zorro, Tio Patinhas, Pato Donald, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Simpsons.

* Programas infantis: Bozo, Angélica, “Xuxa” (Maria das Graças Meneguel).

* Programas de TV/entretenimento: Chacrinha, Clube do Bolinha, “Gugu” (Augusto Liberato), Jô Soares (José Augusto Soares), Hebe Camargo.

* Filmes: Rambo, Tropa de Elite.

* Política econômica: Adolf Hitler (líder nazista), ex-presidente Fernando Collor de Melo (impeachment), Nelson Mandela (ex-presidente da África do Sul), Barac Obama (atual presidente dos Estados Unidos), senador Roberto Jefferson (denunciador do mensalão), ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (“Lula”).

* Nobreza: princesa Diana, príncipe Charles, rainha Elisabeth.

* Religião: padre Cícero, madre Teresa de Caucutá, papa João Paulo II, papa Emérito Bento XI, bispo Edir Macedo, missionário R. R. Soares, apóstolo Waldemiro Santiago, pastor Silas Malafaia.

* Novelas: atores e atrizes em geral.

* Comédia: Darcy Gonçalves.

* Humor: Chico Anísio, Renato Aragão (“Didi”), Tom Cavalcante, Costinha.

* Esportes: Edson Arantes do Nascimento (“Pelé”), Ronaldo (o “fenômeno”), Neymar.

* Música: Carmem Miranda, Gabriel (o “pensador”), Grupo Mamonas Assassinas, Cazuza, Frejat, Byonce, Schakira, Anitta.

* Datas comemorativas: festas de formatura, Páscoa, Natal, Ano Novo, trote com calouros, baile de 15 anos.

* Sexualidade: Marilyn Monroe, Madonna, Rick Martin.

* Maternidade: Fátima Bernardes, Maria da Graça Meneguel (“Xuxa”), Ivete Sangalo

* Profissionalismo: Silvio Santos, Roberto Justus.

* Socialates: Val Martiolli.

* Automobilismo: Airton Senna, Nelson Piquet, Fernando Alonso, Felipe Massa.

* Lutas marciais (MMA): Vitor Belfort, Wanderlei Silva, Anderson Silva.

* Filosofia: Sócrates, Platão, Aristóteles, Jean-Paul Sartre, Thomas Samuel Kuhn, Marilena Chauí, Mário Sérgio Cortella. 

 

Face ao exposto, pode-se observar o quanto os mitos fizeram e ainda fazem parte da cultura de cada povo, manifestando-se de formas diferenciadas conforme a realidade, os costumes, as necessidades e os modos de pensar-fazer de cada época histórica.

Mito é uma forma de conhecimento. No entanto, é na mitologia dos gregos que encontramos o embrião do pensamento racional e sistematizador daquilo que, muitos séculos depois, viria a ser conhecido como Filosofia. Em suma: a visão filosófica e científica que caracteriza cada período histórico da humanidade nasceu, pois, da mitologia. Daí os mitos personificarem e divinizarem as forças da Natureza, servindo de ponte entre o real e o irreal, o sagrado e o profano, o perene e o provisório. Interessante, não?

                    

Referências

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2003.

CHÂTELET, F. Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

JAMES, E. O. Historia de las religiones. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

PIAZZA, W. O. Religiões da humanidade. 3.ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

REALE, G. História da filosofia antiga. São Paulo: Edições Loyola, 1993.

 

prof-marcos-pereira web(*) Marcos Pereira dos Santos é mestre em Educação; especialista em Administração, Supervisão e Orientação Educacional; especialista em Matemática e licenciado em Matemática pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Licenciado em Pedagogia pelo Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE). Escritor, poeta, cronista, articulista e pesquisador da área educacional (Formação de Professores, Tecnologias Educacionais e Educação Matemática). Professor adjunto da Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná; lecionando as disciplinas de “Introdução à Filosofia”, “Filosofia da Educação”, “Políticas da Educação” e “Trabalho de Conclusão de Curso e Seminário Integrado”. Endereço eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.