Filosofia é um tipo especial de saber e de sabedoria

Marcos Pereira dos Santos (*)

duvidaEtimologicamente, a palavra Filosofia (do grego Philosophia) é formada pela junção de dois vocábulos gregos: philos (amor, amizade) e sophia (saber, sabedoria). Segundo Cyrino (1986), este termo foi utilizado pela primeira vez por Pitágoras, renomado matemático e filósofo grego que viveu na ilha de Samos, na Grécia antiga, durante o século V a. C.   

Mesmo existindo há bem mais de dois milênios, temos ainda nos dias atuais muitas dificuldades para se afirmar categoricamente o que a Filosofia de fato é, uma vez que existem inúmeras concepções e definições conceituais acerca da mesma; as quais são resultantes da realidade de cada contexto histórico-social, do pensar-fazer de cada ser humano, da linha filosófica adotada pelos diversos pensadores/pesquisadores, dentre outros fatores. Por isso, não se pode assegurar que existe apenas um conceito científico e preciso de Filosofia que possa ser aceito de modo universal e consensual.

Em sentido amplo, pode-se dizer que Filosofia é, de acordo com Schneider (2008), um tipo especial de saber (conhecimento teórico) e de sabedoria (conhecimento teórico e prático), que nasce da investigação racional do homem na busca de conhecimentos científicos e de soluções para os problemas existenciais humanos (existência que é sentir, pensar e agir).

Grosso modo, a Filosofia pode ser entendida como a Ciência que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade objetiva existencial concreta por intermédio do uso metódico da razão, da lógica, da observação, da maiêutica, da contemplação da natureza, do pensamento, do diálogo problematizador (dialética), da indagação, da análise crítico-reflexiva e da interpretação.

Nesse contexto, todas as pessoas são levadas a filosofar, a “fazer” Filosofia, isto é, a ir em busca da sabedoria, das respostas e das verdades (que são sempre efêmeras). Todavia, essa atividade não deve ser realizada de qualquer modo nem tampouco de forma ingênua. Trata-se de um processo complexo e dinâmico, que tem como pano de fundo os conflitos sociais existentes na realidade objetiva existencial concreta.

Se a essência da Filosofia é, por excelência, a procura do saber e não a sua posse, torna-se possível assegurar que, em certa medida, todos nós somos filósofos (philo-sophos) amadores e que o fundamento da arte de filosofar é a reflexão; termo originário do verbo latino reflectere e que apresenta vários sentidos, a saber: “voltar atrás, re-pensar, pensamento em segundo grau, ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar numa busca constante de significado, examinar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado” (SAVIANI, 1980, p.23). É tudo isto, pois, o que constitui a ação de filosofar.

Uma vez que a atitude filosófica é a reflexão sobre os problemas da realidade objetiva existencial concreta e que todos os seres humanos apresentam dificuldades que lhes são inevitáveis, segue-se que cada homem é levado a refletir, isto é, a filosofar; embora essa ação nem sempre seja habitual e espontânea à existência humana. Com efeito, todos e cada um de nós nos descobrimos existindo no mundo. Tal existência transcorre normal e espontaneamente até que algo interrompe o seu curso, interfere no processo alterando de forma significativa a sua sequência natural. Aí, então, o homem é levado, ou é obrigado mesmo, a se deter e examinar, a procurar descobrir o que é esse algo. E é a partir desse momento que ele começa, de fato e de verdade, a filosofar, ou seja, a refletir (filosoficamente).

Face ao exposto, podemos afirmar que o ponto de partida da Filosofia é exatamente esse algo a que damos o nome de problema, o qual não deve ser entendido, na concepção de Saviani (1980), simplesmente como mistério, enigma, obstáculo, dificuldade, dúvida, indagação, não-saber, coisa inexplicável ou incompreensível; mas como uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer.

Eis, portanto, aquilo de que trata a Filosofia e que leva o homem a filosofar: são os problemas que todo e cada ser humano enfrenta no transcurso de sua existência. Daí dizer que a essência, a verdadeira concreticidade do problema é a necessidade; essência/concreticidade essa que nada mais é do que um produto do modo pelo qual o homem realiza sua própria existência.

Assim sendo, faz-se profícuo destacar ainda que o conceito de problema implica tanto a conscientização de uma situação de necessidade (aspecto subjetivo) quanto uma situação conscientizadora da necessidade (aspecto objetivo). Problema, em suma, possui um sentido profundamente vital e altamente dramático para a existência humana, visto que indica uma situação de impasse. Trata-se de uma necessidade que se impõe objetivamente e é assumida subjetivamente.

Se a Filosofia é realmente uma reflexão sobre os problemas que a realidade objetiva existencial concreta apresenta, então ela precisa estar fundamentada numa reflexão do tipo filosófica. No entanto, para que uma reflexão possa ser adjetivada de filosófica, é imprescindível que se satisfaça uma série de exigências, as quais podem ser resumidas em apenas três requisitos: a radicalidade, a rigorosidade e a globalidade. (SAVIANI, 1980)

Em primeiro lugar, exige-se que o problema seja colocado em termos radicais, isto é, que se vá até às raízes da questão, aos seus fundamentos. É preciso, enfim, que se opere uma reflexão em profundidade. Na sequência, deve-se proceder com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos científicos determinados, colocando-se em xeque as “conclusões” da sabedoria popular e as generalizações apressadas. Por fim, o problema não pode ser examinado de modo parcial, mas numa perspectiva global, de conjunto, de totalidade; relacionando-o com os demais elementos do contexto em que está inserido.

Nessa perspectiva, é que a Filosofia se distingue das demais ciências de um modo notadamente marcante: ela não tem objeto de estudo determinado e exclusivo, haja vista que está voltada para qualquer aspecto problemático da realidade objetiva existencial concreta. Seu campo de ação é sempre o problema, enquanto não se sabe ainda onde ele está. Por isso, diz-se que Filosofia é a busca de respostas e verdades, embora estas apresentem um caráter relativo, provisório.

Diante do panorama delineado, pode-se afirmar que a Filosofia abre caminho para as demais ciências em geral. Através da reflexão radical, rigorosa e de conjunto, a Filosofia é capaz de focalizar os problemas da realidade objetiva existencial concreta, tornando possível a delimitação dos mesmos em determinadas áreas do conhecimento, as quais podem analisá-los de forma minuciosa e, quiçá, solucioná-los.

Todavia, não devemos considerar as categorias da reflexão filosófica como auto-suficientes, que se justapõem numa somatória de caracteres de efeito “mágico”. A radicalidade é essencial à atitude filosófica do mesmo modo que a visão de conjunto. Ambas se relacionam dialeticamente em virtude da íntima conexão que mantém com o movimento filosófico-metodológico, cujo rigor garante de forma simultânea a universalidade e a unidade da reflexão filosófica. Dizemos isso, porque a reflexão filosófica é provocada pelos problemas da realidade objetiva existencial concreta e, ao mesmo tempo, dialeticamente, constitui-se numa “resposta” aos mesmos. Nesse sentido, a reflexão filosófica se caracteriza por um aprofundamento da consciência da situação problemática, acarretando um salto qualitativo que leva à superação dos problemas no seu nível originário.

Sem a pretensão de esgotar o assunto em pauta, torna-se interessante salientar, em última instância, que a Filosofia também apresenta um conjunto de conhecimentos científicos, isto é, formas de conceber/compreender o mundo e critérios didático-metodológicos para nortear a ação das pessoas. A Filosofia procura pensar a vida além daquilo que o senso comum percebe num primeiro instante, ou seja, além de sua pura aparência. Ela não se caracteriza por um conteúdo específico, mas é, fundamentalmente, uma atitude de reflexão (radical, rigorosa e de conjunto) que o homem apresenta perante os desafios da realidade objetiva existencial concreta, os quais são representados pelos problemas de toda ordem que, direta ou indiretamente, assolam a vida pessoal, profissional e social dos indivíduos.

Posto isso, fazemos nossas as palavras do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) ao afirmar que “não há filosofia que se possa aprender, só se aprende a filosofar”; exercício este que consiste em inventariar os conceitos e valores vigentes, criticá-los e reconstruí-los, num continuum processo dialético que vai de uma determinada posição para a sua superação teórico-prática. (LUCKESI, 1991)

Que possamos, pois, nos encantar pela Filosofia, a exemplo dos vários pensadores/sábios do passado e do presente, tendo a consciência de que ela não tem por objetivo solucionar em definitivo os problemas da humanidade; mas apontá-los, investigá-los e mostrar o porquê da existência dos mesmos. Isso já é uma grande contribuição!    

 

Referências

CYRINO, H. F. F. Matemática & gregos. Campinas: Editora Ypsilon, 1986.

LUCKESI, C. C. Filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1991. (Coleção Magistério 2º Grau – Série Formação do Professor).

SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1980. (Coleção Educação Contemporânea).

SCHNEIDER, L. A. Filosofia da educação. Curitiba: Editora do IBPEX, 2008.

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é doutorando em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Escritor, poeta, cronista, articulista e pesquisador da área educacional (Formação de Professores, Tecnologias Educacionais e Educação Matemática). Professor adjunto da Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná. Endereço eletrônico: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.