É necessário aproveitar as férias escolares para “esfriar a cabeça” e usufruir ao máximo os momentos de lazer

Marcos Pereira dos Santos (*)

Ufa!!! Enfim, férias escolares.

Bruges 18As férias escolares de dezembro e janeiro/fevereiro se configuram como o momento mais esperado por professores e alunos de todos os níveis e modalidades de ensino. Nada mais do que justo, pois depois de um ano letivo repleto de atividades desenvolvidas em tempos e espaços escolares, é chegada a hora de descansar um pouco e recobrar as forças, repor as energias para, muito em breve, começar tudo de novo ... (acordar bem cedo, ir para a escola ou para a universidade, fazer tarefas e trabalhos escolares, estudar para as provas bimestrais, preparar as aulas, participar de reuniões pedagógicas e eventos científicos, corrigir trabalhos e avaliações escolares, entregar notas na secretaria etc.). É tanta coisa para pensar e fazer que quase não dá tempo para “respirar”, não é verdade?

Sendo assim, faz-se necessário aproveitar as férias escolares para “esfriar a cabeça” e usufruir ao máximo os momentos de lazer para viajar; visitar parentes e amigos que moram distante; ouvir uma boa música; ler um livro de crônicas e poesias; brincar no parque com as crianças (filhos, sobrinhos e/ou netos, por exemplo); curtir uma praia (com cuidado!); passear e, se possível, fazer compras no shopping center; cuidar melhor da saúde alimentar; praticar diferentes esportes; assistir a uma peça teatral e a programas educativos na TV; ir ao cinema e a um templo religioso para meditar sobre a vida; contemplar as belezas da natureza; escrever um ensaio ou artigo científico, ou mesmo uma obra literária; enfim, realizar inúmeras outras atividades.

Paralelamente a essas atividades de lazer e entretenimento, seria interessante também “reservar um tempo” para praticar o exercício da reflexão, palavra oriunda do verbo latino reflectere, que significa voltar atrás, repensar, retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, buscar significados, examinar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado (CHAUÍ, 2005; SEVERINO, 1992); enfim, “filosofar” sobre o mundo, a sociedade e os nossos modos de pensar e agir na vida pessoal, profissional e em comunidade.

Dizemos “exercício da reflexão”, porque todos e cada um de nós, indistintamente, temos uma filosofia de vida (constituída a partir da família e do ambiente social em que vivemos) que rege e orienta nossos pensamentos e atitudes. Tal orientação pode ou não ser consequência da reflexão. Entretanto, a nossa ação segue sempre certa orientação. A todo o momento, estamos fazendo escolhas, mas isso não significa que estejamos sempre refletindo; haja vista que a ação não pressupõe, necessariamente, a reflexão: podemos agir sem refletir, embora não nos seja possível agir sem pensar.

Portanto, há uma grande diferença entre o ato de pensar e de refletir. Se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão. Este é um pensamento consciente de si mesmo, capaz de se avaliar, de verificar o grau/nível de adequação que mantém com os dados objetivos de mediar-se com o real existencial concreto. Pode aplicar-se às impressões e opiniões, aos conhecimentos científicos e tecnológicos, interrogando-se sobre o seu significado. Uma vez que a atitude filosófica é uma reflexão sobre os problemas e que, por sua vez, cada pessoa tem problemas a solucionar em sua vida. Então, cada ser humano é naturalmente, espontaneamente, levado a refletir, a “filosofar”.

Em outras palavras, isso implica afirmar que a reflexão, a ação de “filosofar”, é provocada pelos problemas que assolam a vida humana e, ao mesmo tempo, dialeticamente falando, constitui-se numa resposta/solução aos problemas. Nesse contexto, pode-se dizer que a reflexão se caracteriza por um aprofundamento da consciência da situação problemática, acarretando, via de regra, um salto deveras qualitativo que leva à superação de tais problemas no seu nível originário. De acordo com Saviani (1980, p.25-26; grifos nossos), faz-se necessário que essa dialética reflexão-problema seja devidamente compreendida para que:

 [...] se evite privilegiar, indevidamente, seja a reflexão (o que levaria a um subjetivismo, acreditando-se que o homem tenha um poder quase absoluto sobre os problemas, podendo manipulá-los a seu bel-prazer), seja o problema (o que implicaria reificá-lo desligando-o de sua estrita vinculação com a existência humana, sem a qual a essência do problema não pode ser apreendida).

Por isso, os problemas são tidos como o ponto de partida da Filosofia (Ciência), de forma que o objeto de investigação da Filosofia e aquilo que leva o homem a “filosofar” são exatamente os problemas que ele enfrenta no transcurso de sua existência humana; problemas esses que têm como essência as necessidades e que podem ser conceitualmente definidos como questões cujas respostas são desconhecidas e necessitam conhecer. (POLYA, 1995)

Nesse contexto, podemos assegurar que uma questão, em si, não caracteriza um determinado problema, nem mesmo aquela cuja resposta é desconhecida; mas uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer. Dito de outra forma: algo que eu não sei não é problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema. A título de exemplificação, torna-se profícuo destacar que um obstáculo que é necessário transpor, uma dificuldade que precisa ser superada, uma dúvida que não pode deixar de ser dissipada são algumas situações, dentre tantas outras, que se nos configuram como verdadeiramente problemáticas.

Sem a pretensão de aprofundar as discussões acerca dessa temática, cabe-nos enfatizar ainda, em última instância, que a prática da reflexão consiste em um exercício deveras importante para que professores e alunos, de todos os níveis e modalidades de ensino, possam (re)planejar minuciosa e adequadamente as atividades que deverão ser desenvolvidas na escola e/ou na universidade durante mais um ano letivo, quais sejam: realização de estudos individuais e coletivos; elaboração de planos de ensino e planos de aula; participação em grupos de estudos; desenvolvimento de atividades de monitoria e iniciação científica; organização e distribuição de turmas, horários de aulas e disciplinas curriculares aos professores; construção coletiva do projeto político-pedagógico escolar; definição de datas para a realização de reuniões/semanas pedagógicas e avaliações bimestrais em conformidade com o calendário escolar/calendário acadêmico; despesas com mensalidades, transporte, uniforme e material escolar (cadernos, livros didáticos, apostilas etc.); elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC); entre vários outros encargos que fazem parte do cotidiano da vida escolar e/ou da vida acadêmica.

Por ora é só, pois, afinal de contas, ainda estamos em férias escolares (...). Vamos deixar para debater com maior rigor científico os assuntos aqui abordados numa outra ocasião. Todavia, almejamos que este artigo possa contribuir, direta ou indiretamente, para que docentes e discentes possam melhor gozar das férias escolares (que ainda restam) tendo a consciência de que as mesmas podem e devem ser concebidas como um momento de lazer, reflexão e (re)planejamento; porém de cunho educativo, pedagógico.

Que possamos, portanto, aproveitar as férias escolares para rememorar o passado, viver bem o momento presente e projetar o futuro. Tais ações se configuram como uma ótima ideia, você não acha? Lembre-se: a semeadura é opcional; porém, a colheita é obrigatória. Está aí a chance de nos tornarmos pessoas cada vez melhores. Todos somos capazes. Basta ter fé num Ser Superior, acreditar em nós mesmos, viver em comum-unidade e sempre fazer o bem sem olhar a quem. Filosofemos a respeito!  

Ademais, boas férias escolares a todos os professores e alunos. É o que cordialmente desejamos.    

 

 

Referências

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

POLYA, G. A arte de resolver problemas: um novo aspecto do método matemático. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 1995.

SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1980. (Coleção Educação Contemporânea).   

SEVERINO, A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992. (Coleção Magistério 2º Grau – Série Formação Geral).    

 

 

prof-marcos-pereira web(*) Marcos Pereira dos Santosé doutorando e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Especialista em Educação Matemática e em Gestão Escolar. Pedagogo e matemático.  Escritor, poeta, cronista, articulista e pesquisador da área educacional (Formação de Professores, Tecnologias Educacionais e Educação Matemática). Professor adjunto da Faculdade Sagrada Família (FASF), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná. Endereço eletrônico: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.