Representações sociais englobam uma vasta gama de crenças, ideologias, opiniões e valores

Marcos Pereira dos Santos (*)

prof-marcos-pereira webEm sentido amplo, a palavra “representação” pode ser associada aos termos ideia, conceito, concepção, entendimento, opinião, imagem ou juízo de valor. Trata-se, segundo Bunge (2002, p.343), de uma “tradução conceitual, visual, auditiva ou artifatual acerca de um objeto material ou ideal”. É a operação pela qual a mente humana tem presente, em si mesma, uma imagem mental, uma ideia ou um conceito correspondendo a um objeto externo.

Apesar de a chamada Teoria das Representações Sociais (TRS) ter sido cunhada inicialmente pelo sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), foi com o psicólogo social Serve Moscovici, nas décadas de 1960 e 1970, que ela ganhou uma nova configuração científica, conquistando gradativamente espaço e aceitação acadêmica no campo das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas a partir dos anos 80, tanto em nível nacional quanto internacional.

Definida como o “conjunto de conceitos, frases e explicações originárias na vida diária durante o curso das comunicações interpessoais” (MOSCOVICI, 1978, p.181), as representações sociais englobam uma vasta gama de crenças, ideologias, opiniões e valores que são socialmente construídos em grupos delimitados acerca de um determinado objeto de pesquisa presente na realidade existencial concreta, configurando-se como uma estratégia particular de apropriação dos grupos sociais para orientar e justificar as tomadas de decisões em relação ao objeto de investigação em estudo.

Em outras palavras, pode-se assegurar que as representações sociais são teorias do senso comum que os indivíduos formulam acerca de determinado tema, assunto, acontecimento, fato ou fenômeno social (objetos de representação) a fim de internalizar o ‘novo’ e nortear suas atividades práticas cotidianas, a partir de seus conceitos preexistentes. Assim, as representações sociais tornam ‘familiar’ o que não o é; fazendo com que o objeto de representação (material ou não material) a ser processado mentalmente pelos sujeitos sociais sofra determinadas transformações. Isto significa dizer que, no processo de formação de uma representação social, estão presentes dois conceitos determinantes, a saber: objetivação e ancoragem.

Nesse contexto, surge a denominada Teoria do Núcleo Central ou Teoria da Abordagem Estrutural das Representações Sociais, de Jean-Claude Abric, a qual objetiva explicar a estruturação das representações sociais, ou seja, busca levar à identificação de quais são as palavras e/ou expressões que têm maior grau de importância no significado de uma determinada representação social, estruturando a apresentação das mesmas num núcleo central e num sistema periférico específico (ABRIC, 1998). Para o autor, uma representação social é organizada em torno de dois subsistemas distintos, quais sejam: central e periférico. Nesse arranjo, o sistema central, que pode ser composto por um ou mais elementos, dá a significação da representação social; ao passo que o sistema periférico garante sustentação a essa base, configurando-se como uma espécie de componente estruturante.

Dito de outra forma, Abric propõe que os elementos da representação social sejam organizados em um núcleo central, no qual toda a representação social é organizada e unificada, dando sentido ao conjunto das representações. Todavia, existem em volta desse núcleo elementos periféricos que contribuem para clarear o caminho conceitual, teórico e metodológico do estudo das representações sociais. Portanto, o que determina o(s) elemento(s) que constitui(em) esse núcleo central depende da natureza do objeto de representação e da relação que o sujeito social mantém com o mesmo.

Os elementos do núcleo central tendem a se apresentar como funcionais e normativos. Isto implica dizer que o núcleo central tem um papel relevante para a representação social, uma vez que organiza as significações e prescreve ações para que a representação seja mantida. Sendo assim, Alves-Mazzotti (2007, p.582), chama a atenção para o fato de que o núcleo central desempenha três funções essenciais, a saber: 1ª) geradora – ele é o elemento pelo qual se cria e se transforma uma representação; 2ª) organizadora – é ele que determina a natureza das ligações entre os elementos de uma representação social; e 3ª) estabilizadora – seus elementos são os que mais resistem às mudanças. Por sua vez, os elementos do sistema periférico também apresentam três funções principais, quais sejam: a) ser a interface entre o núcleo central e o contexto; b) adaptar as representações diante das mudanças do meio; e c) preservar a representação (RANGEL, 2004). Nesse sistema, é possível que exista a presença de elementos históricos relativos ao indivíduo e que, consequentemente, atuam na constituição desse sistema, caracterizando assim uma maior heterogeneidade dos conceitos em relação ao grupo.

Sem a pretensão de esgotar o assunto em questão, faz-se necessário salientar ainda que a análise de uma representação social, permeada por saberes, crenças e valores relacionados com aspectos cognitivos e sociais, não se dá a conhecer de modo muito simples. Em função disso, a abordagem estrutural das representações sociais abriga distintos métodos de pesquisa científica, bem como diferentes instrumentos de coleta de dados.

A título de exemplificação, podemos citar o enfoque plurimetodológico das representações sociais, proposto por Abric (1998). Esse método de pesquisa científica, como suporte da TRS, elaborada por Moscovici, agrega aspectos tanto de ordem qualitativa quanto de natureza quantitativa. Daí o enfoque plurimetodológico fazer parte do modelo misto de pesquisa denominado qualiquantitativo. Contudo, entendemos que a pesquisa sobre as representações sociais, estando comprometida com situações sociais naturais e complexas, é necessariamente uma pesquisa de abordagem qualitativa; a qual se configura como uma tradição específica no campo das Ciências Sociais que depende essencialmente da observação dos sujeitos sociais em seus próprios territórios e da interação com esses indivíduos através de sua própria linguagem e em seus termos específicos.

Diante do exposto, pode-se observar que a TRS e, em especial, a Teoria do Núcleo Central, se apresentam como referenciais teórico-metodológicos de pesquisas científicas extremamente úteis no terreno das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas em geral. Todavia, é preciso utilizá-las com cautela, discernimento, técnica e método científico, a fim de que possam efetivamente contribuir positivamente no processo de investigação científica a ser realizada pelo pesquisador em sua atividade empírica de pesquisa. Atentar para essas questões é, pois, uma atitude ética e prudente!

 

Referências

ABRIC, J. C. A abordagem estrutural das representações sociais. In: MOREIRA, A. S. P.; OLIVEIRA, D. C. (Orgs.). Estudos interdisciplinares em representações sociais. Goiânia: AB Editora, p.27-38, 1998.

ALVES-MAZZOTTI, A. J. Representações da identidade docente: uma contribuição para a formulação de políticas. In: Revista Ensaio: avaliação de políticas públicas em educação. Rio de Janeiro: Editora da CESGRANRIO, v.15, n.57, p.579-594, out./dez., 2007.

BUNGE, M. Dicionário de filosofia. São Paulo: Perspectiva, 2002.

MOSCOVICI, S. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1978.

RANGEL, M. A pesquisa de representação social como forma de enfrentamento de problemas socioeducacionais. Aparecida: Ideias & Letras, 2004.

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é doutorando em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), escritor, poeta e professor adjunto do Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE), da Faculdade Sagrada Família (FASF) e do Instituto de Ensino Superior Sant’Ana (IESSA), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa/PR. Endereço eletrônico: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.